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Borboleta embriagada


Os dias são corridos demais, as semanas passam e as coisas cotidianas acabam turvando nossa visão de nós mesmos, do lugar que pertencemos e as vezes até de quem somos. Acabamos então nos transformando em robôs, meros fantoches do dia-à-dia, fazendo parte da massa geral, um número, um contato, um individuo sem nome fazendo parte das estatísticas . Acontece que venho pensando nas coisas que a gente não vê, em pessoas que estão em meu coração a tanto tempo pegando poeira que eu nem me lembro mais de saber como está, alguém que marca presença as vezes em palavras, comentários mas não em matéria, um fantasma presente nas paredes da sala tão conveniente como um quadro emoldurado, nada mais.

Fiz mentalmente uma lista das musicas que me lembravam vocês, das fotos que queria te mostrar e de coisas que não sei se você sabe de mim e através dessas revisões acabei me percebendo, passamos tanto tempo embriagados e fora de nós mesmos que nem nos conhecemos, e acabamos convivendo com um intelecto desconhecido, um estranho em nossa casa. Esse inconsciente que eu chamo de meu desperta as vezes em sonho ou mesmo em bares da esquina, mas quem eu sou de verdade até eu mesma esqueço, mudo identidade e natalidade, pergunto coisas sem se quer esperar por resposta, fingindo querer saber pro silencio se quebrar. As coisas que realmente queria conversar não digo, pois não são do interesse de ninguém se não apenas meu e um dia pode ter pertencido também a outra pessoa, mas as manchas no passado apagaram essa vontade de saber, essa vontade de contar, lavaram tudo a não ser as memórias. O que eu queria lhe falar era que nem sempre fui assim fria e amarga, houve um tempo que qualquer bobagem me tirava o riso e outra devolvia de forma rápida, a vida tinha mais rodeios mais nós a serem desatados, ou será que ainda tem e eu apenas deixei de reavê-los ? O que me levou a essa indagação floresceu em uma mesa de café, ouvindo as inúmeras estórias de minha vó que veio à me lembrar de quando pequena adorar borboletas. Dizia ela e pude assim me lembrar que numa manhã de primavera assisti esse pequeno inseto desabrochar de um casulo, não satisfeita com o nascimento da ninfa tive que tira-la para dançar. Com delicadeza coloquei a borboleta nas mãos e a levei para "conhecer o mundo", que tolice a minha. Mostrei as arvores, as flores, o sol .. e tudo que havia no jardim, uma guia turística empenhada e sem muitos conhecimentos científicos na época do que realmente vinha a ser viver. Só que para se viver 24horas o quintal da minha casa bastava e as vezes penso que ainda basta. O tempo que aproveitamos vem das coisas às quais nos dedicamos e pensamos, não adianta gastar suor construindo quem você é por fora se a vida continua bagunçada por dentro.

Thamara Morgan

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