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Conto: A aventura no Oriente Capitulo 1: Fazendo novos amigos

Eu viajava pela Asia, nas regiões das kastas mais menosprezadas pela cultura local. Escolhi aquele nicho pois sabia que lá poderia encontrar uma história interessante e explorar os aspectos sócio-culturais dos Emirados Árabes. Andando pelas vielas, me deparei com uma placa escrita em Inglês "Loja de Artefatos Madame Khalil", decidi subir as escadas vermelhas e cheguei a uma espécie de salão com paredes amarelo ovo.

O lugar era repleto de coisas, texturas e formas. Eram cabideiros com roupas volumosas e muito brilho. Mal tive tempo de fuçar nas louças decorativas quando fui interrompida bruscamente por uma menininha mal humorada. Lathifa estava vestindo um vestido de pano de saco, totalmente contrastante com aquele lugar, tinha os cabelos pretos com cachinhos na ponta e um olhar penetrante de uma boneca que nunca piscava. A pequena parece ter me dado uma bronca em seu idioma, quando não respondi, ela trocou algumas palavras tipo "não toque se não for comprar". Logo insisti para falar com algum adulto, sua mãe ou chefe, pois eu era uma turista interessada em comprar, menti.  Quando Madame Khalil apareceu, tomei um susto pois se tratava de uma indiana bem apessoada, diferente do ambiente onde estávamos e mesmo assim fumava seu cigarro e se sentia muito a vontade. Informei que era jornalista em busca de histórias e que gostaria de entrevista-la. Obviamente a simpatia da senhora acabou ali, me disse pra "xispar" e que seus clientes eram muito discretos e uma curiosa ali não seria bom para os negócios. Lathifa me olhava fixamente, esperando minha resposta mas não discuti e sai. Esperei aos pés da escada, imaginando quanto mais de hostilidade me aguardava em minha jornada. Observei a rua alaranjada pela poeira e permaneci onde estava, me dando conta que estava muito longe de casa, quase perdida.

Lathifa desceu a escada em passos duplos, saltando os degraus e correndo do jeito que as crianças fazem. Quando ela passou pela porta eu segurei pelo casaquinho verde bordado que ela estava usando. Ela gritou : Ei! Ensaiei minhas desculpas em seu idioma e ela esperou que até que eu dissesse o que queria. "Me guie pela cidade", sim foi um improviso e tanto. Eu estava arriscando demais colocando minhas expectativas naquela menininha. Mas ela falava um pouco de inglês e era única pessoa que eu conhecia naquele país. Ela estava a caminho de uma entrega, anunciou. Disse que não deveria se atrasar pois Madame ficaria furiosa. Percebi que carregava uma sacola de pano mas resolvi não perguntar do que se tratava. Falei " vou com você ". A garota revirou os olhos mas permitiu que eu a seguisse. Estranhei quando ela entrou em um ônibus que mais parecia um caminhão de carga, mas as pessoas estavam sentadas ali e eu queria viver aquela experiência.

Ao longo do trajeto do coletivo, notei a paisagem mudando. Até o ar era menos denso que na periferia, apesar de fazer muito calor. Senti um leve cheiro de maresia, mas não avistei o mar, somente alguns prédios muito altos ao longe, era Abu Dhabi. A viagem com certeza mexeu com a minha imaginação, pois verifiquei 3 vezes a bateria do Iphone, pois queria tirar ótimas fotos em nosso destino. Antes mesmo do meu devaneio acabar o ônibus parou em um centro comercial. Era um lugar fedorento e as margens de uma cidade tão luxuosa, pude reconhecer alguns poucos turistas e a maioria do povo ali estava barganhando.

A menina me pediu para esperar no ônibus e mal pude responder e ela já estava atravessando na frente dos carros e parando em uma banca ao lado de uma tenda vermelha de onde saiu um homem grandalhão. Fiquei tentando entender a situação e quando ela entregou a encomenda, ele fez questão de verificar. Eram bolos de dinheiro e ele teve que baixar os óculos escuros no rosto para contar tudo. A garota esperou com paciência e notei uma linha de ansiedade em seu rosto miúdo. Quando ele acabou, abriu um sorriso amarelado dentro de sua boca ressecada pelo tempo, a menininha não retribuiu o sorriso e despediu-se. Lathifa atravessou o acostamento e antes que pudesse alcançar o ônibus, dois capangas a seguiam, ela estava preocupada em atravessar e não notou a presença dos estranhos. Tentei gritar e alerta-la mas o barulho dos carros abafou a minha voz.

Quando Lathifa atravessou correndo a avenida daquele lugar, percebi que se tratavam de marginais perseguidores atrás dela. Desci do ônibus e corri em direção a ela, balançando os braços e alertando para o perigo eminente. Ela olhou pra trás e mãos grandes a agarraram, de repente o alvo dos criminosos também era eu. Corri na direção que foi Lathifa, que conseguiu se desvencilhar de um deles. A menina correu pelo gramado e atravessou mais uma vez a avenida, tomando uma distancia considerável do ônibus, tentei alcança-la em vão. Os homens estavam armados certamente pois o tumulto por onde passamos só fazia aumentar.

Quando perdi a garota de vista, notei que estava perdida e sozinha de novo, fiquei horrorizada e só consegui correr. Corri e ao mesmo tempo fiz uma visualização do território onde estava. As ruas começavam a ser iluminadas pela luz do pôr-do-sol e dos postes. Era o anoitecer chegando. Encontrei uma casa, destoando da arquitetura daqueles prédios, era uma casa branca e enorme, mas parecia vazia e eu me sentei na beira do cais para me acalmar. Contemplei o mar e parte do litoral da cidade planejada de Dubai.
Estava em um bom esconderijo ao meu ver, um ponto cego da avenida em uma casa vazia, sem grandes riscos. Começou a fazer frio e me aqueci com um cardigam rosa chá que carregava na bolsa, botei os fones de ouvido para espantar os pensamentos com minhas músicas favoritas. Fechei os olhos por um minuto e a preocupação estava crescente. Eu pensava em Lathifa, nos homens desconhecidos, pensava nos porquês e até questionei se a menina tinha família. Escutava Oasis " Stop Crying Your Heart ", confesso que eu estava melancólica.

Antes que eu pudesse chorar e decidir o que fazer, um clarão veio do mar e um zunido ameaçador balançou as águas a minha frente. Era um Iate enorme que estava atracando no cais, que boba eu, não pensei que o dono da casa chegaria. Desceram homens vestidos com batas e a barbas bem feitas, me senti ridícula só de pensar em correr. Eu estava a mercê daquela situação. Esperei para saber o que seria de mim.

O rapaz que desceu do Iate não tinha mais que 30 anos, usava bermuda jeans, uma blusa branca e um lenço quadriculado nos ombros que parece ter sido desamarrado da cabeça. Eles me veem mas não consigo ver o rosto por causa da luz do barco. Uso uma das mãos para tapar os olhos da luminosidade e forço a vista a enxergar o que me espera. Uma voz rouca e feroz grita para o Iate " John, por favor desligue os faróis !"

O mar parece ainda mais azul ao cair da noite, e eu me nem me levantei para receber o meu anfitrião indesejado. Sinto a areia afundar com a tensão dos meus pés e me mantenho imóvel. Os seguranças se enfileiram e o moço de jeans passa a frente deles, ele é o chefe. Dirigindo-se a mim diz " Ora, ora, olha o que um passarinho trouxe. Desculpe, não queremos incomoda-la em seu passeio. É americana?! Diga-me, querida, quem é você? "

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